Cadê os brilhos dos olhos, gente, cadê? Hoje vi um menino ligeiro pedindo dinheiro. Hoje vi um documentário chamado "Sobreviventes" com relatos de gentes falando das feridas da vida. Era gente que sofreu cada coisa, prisão, tortura da ditadura, depressão pós parto com sofrimento psíquico grave, acidente de carro no 8º mês de gestação com 3 paradas cardíacas, pai alcoolista na infância, abuso sexual na infância. Era cada dor. Em cada relato um olhar, cada brilho. Em todos havia aquele querer viver. Uma vez vi um filme "o Segredo dos seus olhos", em que os olhares dizem mais que mil palavras.
Hoje eu vi um menino pequeno pedindo dinheiro na escadaria do pão de açúcar. Ele era negro, ligeiro e lindo. Tão pequenino, não passava de 10 anos, e já sabia tanta coisa ali naquela escada, pulava de um lado pro outro, falava mil coisas com a irmã mais velha quieta num canto. Tomavam iogurte pelo furo da embalagem e no final rapavam com os dedos, que não tinha colher, e o lambuzado do rosto e dos dedos, ele limpava na calça mesmo, que guardanapo é coisa de gente que tem mesa. Perguntou pra irmã sobre o segurança bravo que antes trabalhava ali, onde estaria ele? Pela escada passavam senhoras e senhores distintos, uns não olhavam, outros deixavam cair leves moedas nas mãos miúdas. Passou um senhor e seu filho playboy, o pai deixou cair as levezas. A mãe do menino miúdo gritou do outro lado da rua "vem cá já" e o playboy nem deu tempo, sussurrou "tá vendo, pai, ele vai lá entregar o dinheiro pra ela gastar". As três moedas não passavam de três reais, no que será que gastaria a senhora do outro lado da rua? Em roupas certamente que não era, porque o menino estava muito bem vestido, suas calças custavam muito mais do que três moedas. Escola também não era, porque criança que trabalha em escada estuda em escola pública nesse país. A bem da verdade é que não é da nossa conta o que a mãe faria com as leves moedas. O menino saiu correndo, mas com a cara muito zangada, e antes de atravessar a rua bateu forte o pé, umas três vezes ou seis, não sei bem. Atravessou correndo. Voltou correndo e se trepou no corrimão. Como se divertia, ria leve, ria bonito. Queria saber se a mãe estava vindo atrás dele, certamente era pra dar-lhe uma surra, porque ele saiu correndo sem sua permissão. A bem da verdade é que a gente nunca vai saber o que essa mãe queria, não veio atrás do menino. Ele, pra disfarçar a tristeza da mal-sucedida tentativa de chamar a mãe pra perto do seu local de trabalho (mesmo que brava, mesmo que pra surrar), mudou logo de assunto e voou pra cima da próxima senhora distinta que vinha fazer compras. Como brilhavam os olhos daquele pequenino menino!
2 comentários:
camilona, tu tá gastando este mês!
tá muito bom, tô gostando.
xx2
Lindo demais seu texto!!
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