me encantei. encontrei, ai de mim, muito mais do que pensei sonhar.
era um dia razoavelmente quente dentro do outono de são paulo. sol até que havia, em frestas. a tarde subia quando o carro deu partida e entrou na estrada: destino apresentação do músico, atrás da sua viola, que eu mais poderia querer ver desde meus antigos anos. um almir sater.
o carro correu pelo asfalto. as nuvens cobriam mais e mais o céu. lembrei da última vez que passei por aquela cidade. era fim da primavera e o frio não estava diferente, nuvens iguaizinhas cobriam aquele vasto céu, coincidências casuais. só sei que me etupefou do mesmo jeito: como podia um céu tão grande. é o que aquela cidade me fazia me perguntar. aquela cidade é essa cidade não tão longe de são paulo, não tão longe de ubatuba, não tão longe de tantas cachoeiras. é ali loguinho, com ceuzão grande.
o carro passou pela avenida, pelo centro - calçadão, mercado, prefeitura. nada muito diferente de são paulo, da praia ou de uma cidade do interior, mas misteriosamente encantava. o carro parou no hotel, malas pra fora, pé na rua, o estômago já batia as horas. um frio mais invernoso batia com o descer do sol. a caminhada era tranqüila pelas ruas do centro. foi quando cheguei na avenida (principal?) e vi um vale estrondosamente negro, encantador, difícil de traduzir em tupiniquim. bem pra lá do vale voltavam-se a ver as luzinhas da cidade: prédios, casas, corre-corre de carros. diante daquele negrume o pensamento voou, voou. e dali a pouco a pergunta pulou: "que tem lá embaixo?". ninguém ali podia responder, até porque não havia ninguém. volta à caminhada, agora com o pensamento no vale negro e lembrança de um almir dali a pouco.
era preciso andar um bocado pra chegar a um lugar que tivesse algo que acalmasse as vontades viscerais. mal chegando no boteco salta logo um bolinho de bacalhau, uma cerveja estupidamente gelada (ô, com o frio de geada), um lanche e basta, estava segura para muita música madrugada a dentro. as pessoas daquela cidade são realmente intrigantes, na fila do banheiro fui tardiamente avisada que "me daria muito mal" com o frio, porque a apresentação era perto do lago do parque. e eu com um casaqueto e um pano de cachecol....
mais uma caminhada pouca, um mar de pessoas na beira do parquezão. parque adentro, muito mais gente e muita polícia. o palco estava pronto, dali a pouco entraria o homem com sua viola. e foi como foi. entrou na calmaria, com outros bons músicos em torno, tocaram debaixo de uma lua quase toda ela cheia, um céu de se perder de vista, a gente toda apertada pra aguentar o frio (quê, que frio? aquilo tudo em volta esquentava horrores!). no meio de tudo aparece grande, preto e vermelho, com toda a sapequeza de si um baita saci acompanhando as toadas. até tentei tirar uma foto de tudo junto - almir, saci, multidão - mas o rapaz não quis aparecer. a lua andou pelo céu, nem bem a gente viu, almir se despediu. ah, alma, cabeça e pés já iam leves. e na salva de palmas o homem voltou e tocou mais um bocadinho, pra que o leve ficasse pena. ver aquele homem ali, tão pertinho depois de tantos anos de vontade desejosa, era sonho bom acordado.
depois de uma noite nada revigorante (seriam necessárias mais de 15 horas de sono pra revigorar toda a caminhada e emocionada do dia anterior), mais uma apresentação no sesc da cidade, cada coisa bonita!
e na saída pra estrada, de volta o vale, mas dessa vez não era negro e profundo. havia clareza lá embaixo: o que se via era uma imensidão de mato verde, verdumes que não se acabavam. e muitas entranhas que era difícil saber o que realmente havia ali dentro, ali embaixo, naquele lugar. era bonito demais. era misterioso demais. pessoas em volta, agora havia um ou outro transeunte, disseram que era favela, comunidade indígena e outras mazelas. o carro na estrada de novo e até hoje fico a pensar o que terá naquele lugar. qual o mistério daquela cidade? a cidade que o saci pode aparecer pra traquinagem, sem medo. a cidade que as pessoas falam, sem medo. a cidade do vale imenso e do céu vasto. foi lá que eu vi.
Um comentário:
Linda vc! Até parece q eu tava la pertinho vendo isso tudo.
Beijos
da Lua
(quase toda ela)
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