No topo da montanha, sentada com as mãos abraçando as pernas entrelaçadas, pensando... Lorena parecia mesmo que não ocupava lugar nenhum, tão franzino era seu corpo. Pernas e braços magrelos, cabelos lisos corridos ao longo do corpo, tudo exageradamente comprido. E compridos eram seus pensamentos. Nunca teve preocupação para nada. Buscava assuntos para saracotear. Buscava com o que se incomodar. Sua vida era tão bem resolvida, resultado de ter nascido em família de berço esplêndido e de ter feito exatamente tudo aquilo que se é esperado de uma cidadã de bem. Nada fora da linha, nem um passo bambo. A corda sempre esteve muito bem presa e os sapatos de bailarina não se escorregavam.
Como toda bailarina, chega uma hora na vida em que pode se machucar. Lorena esperou avidamente esse momento pelo tempo. É algo que tira o chão e não sobra céu. Uma sensação que o coração, que sempre bateu e deu cordas de sentimentos, secasse e trepidasse a cada instante. Os olhos enxergam coisas ao longe... sem cores, sem fome. Como que se nesse mundo imenso, nesse vasto universo infinito, não existisse mais nada nem sentimento mais triste. Ninguém entenderia as coisas por dizer, ninguém entenderia o que brota daquele coração seco.
Lorena não sabia dizer como era, sabia apenas que a hora chegou. "Sempre tudo tão perfeito e agora esse nada" pôs-se a pensar. Mas logo espantou esse raciocínio infeliz, que ia contra tudo que sempre quis. Deixava rolar toda aquela tristeza que saía de seus olhos em forma de lágrimas salgadas, papilarmente sentidas como amargas. Essa tristeza que voltava ao fundo do corpo pela boca, assim como as nuvens voltam ao fundo do mar, num ciclo eterno.
Seu pensamento maior era essa sensação de solidão que abate todos os mortais nos momentos ruins. Porque na hora da alegria todo mundo abraça, sem dó nem piedade, sem perguntar "posso te abraçar agora? quero te fazer mais feliz". Não, não, as horas de tristeza são abandono. Pensar que nunca ninguém jamais vai te entender, jamais vai te estender a mão de novo, quem nunca pensou? Até a bailarina já...
Seu amargor aumentava com a quantidade de lágrimas escorridas. A magrela Lorena de olhos imensos e agora inchados. Sentia que a pele ressecava, tamanha desidratação. E a cada estilhaço de pele se sentia mais só. E mais só...
Era como uma corda a se desenrolar, pensamentos que nunca acabam, sofrimento que não tem fim. E pensando nesse infinito, enxugou os olhos inchados e machucados de tanto choror com seus imensos cabelos secos. Olhou adiante e apenas viu água amarga cobrindo todo o mundo a sua volta.
Um comentário:
e entrou no mar de mágoas, nele sentiu medo das águas geladas, mas depois de um tempo gostou dele apesar de tudo...
A-d-o-r-e-i! como sempre...
Beijos
Lua
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