Rosa Maria estava sentada no banco de madeira. Um banco de madeira escura e pernas de ferro. Um banco que não sairia de lá tão cedo. Feixes de sol que passavam pelas grandes árvores em volta do banco ilmunivam partes de seu corpo. Um feixe clareava justamente seu ventre. Rosa Maria, de idade indeterminada, mantia um leve sorriso no rosto. Um rosto iluminado sem feixes de sol. Cabelos castanhos mal presos na trança de todo dia. Roupa leve para agüentar a primavera cada vez mais quente dos trópicos. Sandálias penduradas nos pés esticados para frente, de um corpo relaxado em cima do banco pesado.
Rosa Maria fitava aquele horizonte de pessoas passando freneticamente, de carros buzinando, pássaros cantando e árvores paradas. Um frenezi de cidade grande, em que as pessoas caminham ouvindo seus i-pods - artigos de uso único e particular - e não se cumprimentam, pois ouvem suas músicas. Não se comprimentam pois não se vêem. E sentem medo. Rosa Maria incendiava cada vez mais sorriso. Acariciava sua pequena barriga, que por algum motivo não determinado recebia aquele forte feixe de sol. Ela segurava firmemente um papel nas mãos e tinha vontade de poder conversar com as pessaos que passavam à sua frente. Mas as pessoas exalavam o zunido de seus i-pods. Ninguém queria saber o motivo de seu sorriso, nem do feixe de sol em seu ventre. Aliás, tanta luz assustava as pessoas e elas se esquivavam. Sim, se esquivavam...
Pensando em como as pessoas cada vez mais se voltam para si mesmas, Rosa Maria encolheu as pernas e sentiu um ar frio passar por perto. Cada vez mais as pessoas se preocupam com suas preocupações, em como elas são importantes para todos, onde todos se resumem a si mesmas. As conversas de hoje em dia não têm pés nem cabeça. Ninguém se escuta. Hoje em dia só se ouve músicas taxativas puxadas da internet.
E não era bem isso que Rosa Maria precisava agora. Agora era hora de ser ouvida com todos os poros de outra pessoa, era hora de querer ouvir o que o outro tinha para lhe contar. Levantou-se do banco pesado. Os ventos gelados aumentavam, apesar do sol ainda brincar nas folhas das árvores. Rosa Maria começou a andar em direção à rua. Em direção ao médico que iria enfim ouvi-la e explicar como aquela simples folha de papel poderia mudar todo o rumo de sua história.
3 comentários:
viva, a escritora aposentada voltou à (cri)atividade.
o texto não tem nada de proustiano, mas será que foi o toque do gênio que te fez vencer a inércia?
seria legal se pudéssemos conversar, com adultos, a respeito da técnica do texto. tu topa?
mas, de qualquer modo, parabéns. fiquei contente.
por favor, vá em frente.
do amigo lourival.
não conhcecia este seu lado que escreve (ou re-escreve) a vida e as coisas da vida...
você voltou faz tempo a re-escrever, quem tá paradinho sou eu, trocar recados contigo hoje lembrou que existem blogs a muito tempo não visitados.
Adorei o texto, estava conversando com o Danilo aqui da agência sobre isso semana passada.
Por isso que eu digo, você já sorriu para algo besta hoje? Hoje eu sorri para uma senhora atravessando a rua correndo quando percebeu que o faról já estava aberto!!! São coisas assim que representam, para mim, o pouco raio de luz e calor que passa pela grossa camada de poluição dessa cidade.
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