quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Pensamentos Soltos

Começa a sorte de hoje. E qual deve ser a sorte? O hoje? Dormi pensando nesse conceito que é o tempo. Na ilusão que esse conceito nos dá de amanhã. A única certeza que temos é a de ontem (e mesmo assim, que certeza?) e a de agora. Amanhã nunca se sabe. Não se sabe o que vai nos acontecer e a nossos entes queridos. Mas antes de não sabermos o que vai acontecer, não sabemos se seremos. Se ainda existiremos. É disso que tentamos fugir cada dia, cada segundo nesse tempo. Programamos um sem fim de afazeres, sonhamos um sem contar para conquistarmos. Isso tudo pra que? Pra esquecermos do que é indubitável. Ela vem calma por aí, não sabemos quando. Ela caminha sorrateira, nos deixando esquecer do tempo em que ela chegará. A morte que é tão feia de se ver, de se sentir, de escrever e de ler escrita. A palavra por si só já é um amedronto. Não gostamos de lê-la, porque assim dela nos lembramos. Não gostamos de lembrar porque dela tememos. Tememos nos ver um dia com ela, que necessariamente nega a vida. Ah, a vida é palavra bonita, essa gostamos de ler, de falar, de sentir! Sem percebermos que passamos a vida toda querendo esquecer a morte. Passamos a vida não-vivendo. Não! Não passamos a vida morrendo, apesar de ser isso um lugar-comum. Mas não foi esse o sentido de não-vida que quis aqui expor. Passamos a vida não sabendo como vivê-la, mas querendo aproveitar cada segundo, cada última gota dada, porque temos medo da morte. E no momento em que estamos sonhando o amanhã, programando os afazeres, já não estamos vivendo esse agora, do conceito tempo dado, imposto. Ao pensarmos no amanhã, não vivemos esse já. Ao lembrarmos do ontem, remontamos aquilo que vemos agora. Mas o hoje é tão difícil de ser vivido. De ser aproveitado em sua finitude e plenitude! Ao que tudo indica, a boa e velha frase “faça hoje o que pensa fazer amanhã” é antes de tudo voltarmos pra nossa humanidade, pra nossa perenidade e aproveitar agora o que penso fazer daqui cinco minutos. Pois nem daqui cinco minutos estamos certos de que estaremos aqui.

Isso tudo não nos deixa confundir, afinal somos apenas um, cada um. E o que se passa na cabeça são tantos desejos. Então teremos que deixar alguns para serem feitos daqui cinco minutos ou nunca. Assim, que a tarefa vida, tão complicada, tão questionada, tão querida, é tarefa árdua, de escolhas entre querer e poder, tantos quereres e tão poucos poderes... a vida que tão bem-fadada, em contra partida à tão mal-fadada morte, é também cheia de desprazeres e de injustiças. São tantas as vezes que ouvimos e pensamos “essa merda de vida”. Mas ninguém pensa “essa querida morte”. A não ser alguns e outros, como toda regra essa também tem suas exceções. A vida é, portanto, tão positiva quanto negativa. A morte é caso esperado, dela não temos como fugir. E o nosso ser-sendo, é constante insatisfação, longe de plenitude, perto, cada vez mais, de sua finitude.

14/07/2006

Um comentário:

O. Paulo Souza Jr. disse...

eu fiquei sem ter o que falar... fiquei emocionado, simplesmente lindo o post!

As pessoas procuram as respostas na vida porque acham que correm contra o tempo para o encontro com a morte.

A merda toda é que na verdade as respostas estão na morte, "por o que vc quer sorrir quando estiver morrendo?"

Minha resposta é TUDO.

Minha orientadora na faculdade uma vez disse que monografia nunca se termina, vc interrompe porque acabou o tempo. A vida é assim também para mim, então não penso em concluíla, mas desenvolver bem cada capítulo.

Continue escrevendo seus textos são maravilhosos.