A membrana que separa ilusão e realidade é tênue e dá um medo... Mas mal a transpassamos, percebemos que o lado real até tem luz e não é tão ruim assim. "Não é choro de tristeza, não, é de felicidade, sim", dizia minha mãe toda vez que eu perguntava "por que você chora, mãezinha?". A gente sempre dizia você, ou ocê, ou cê dentro de casa quando queria conversar. Esses maneirismos de dizer vosmicê, vossa senhoria, era pra outra hora, hora da rua, onde a gente precisava manter uma certa linha de distanciamento com as pessoas. Dentro de casa era tudo mais íntimo, quase tudo se confundindo, por isso os "cês" rolavam soltos, era gostoso. Mãezinha, que chorava com as palmas das mãos cobrindo o rosto todo e os cabelos alvoraçados cobrindo tudo, me dava uma penúria, que ao vê-la ali no meio da sala sem nada, naquele estado, eu corria pra cima dela, quase atropelando meu irmão e esbarrando no berço do bebê. Mamãe nem se mexia, apenas espamava em soluços. Daí quando dizia que "era choro de felicidade, sim", levantava o rosto pra cima, me encarava bem de frente no fundo dos olhos com olhares profundos e completava "a felicidade tem mil formas, pequena, pode vir em dança, em flor, em choro. E eu choro porque amo tanto vocês três aqui nessa sala desnuda". A gente dizia que a sala era assim sem nada, mas na verdade era uma bela salona de fazendão. Meu avô construiu aquilo com muito suor dos outros. Era uma sala tão grande que dava a sensação de imensidão, porque nunca tiveram tanto tempo pra mobiliá-la com os grandes móveis necessários pra ocasião. E nós, as crianças, gostávamos muito de brincar ali, andar a cavalo, nadar no lago, correr atrás dos passarinhos e arrancar frutinhas do pé. A gente brincava de tudo sem dó, porque tinha espaço à beça mesmo.
Conforme o tempo passou, do tamanho da sala, a distância das coisas ficou cada vez maior. De repente mãezinha estava lá longe com o carrinho de bebê, que logo virou carruagem. Meu irmão andava e falava pelos cotovelos, já não queria saber de caçar passarinhos dentro do salão, pegou os livros com afinco pra virar homem feito. Minha irmãzinha botou vestido branco e saiu de mãos dadas com um homem bonito. Mãezinha continuava com aquele olhar profundo e pra cima, dizendo palavras boas de se ouvir, enquanto eu olhava pros lados preocupada em adormecer minhas pequenas boneconas. As bonecas custavam a pegar no sono, davam uma trabalheira, mas quando adormeciam, ah, que tranqüilidade serena que pairava, daí sim eu tinha tempo pra me meter a olhar o céu tão branco de estrelas. "Cada estrela tem uma história", dizia meu avô, "cada uma passou por aqui, fez e aconteceu, depois subiu". Eu olhava praquela branquidão e pensava que não queria ir pra lá, não, que aqui ainda era quente e gostoso. Pensava, encaraminholada, que essa subida devia dar um frio danado na barriga, porque era alto lá em cima. E meu pensamento voava solto, até que sempre, inevitavelmente, um choro manhento me tirava lá do alto pra ter que cuidar daqui de baixo tudo de novo.
2 comentários:
belo, pungente.
camilona subiu um degrau.
e os neologismos estão corretos.
stenio
Quando tiver os capitulos completos do livro me manda! Estou esperando...
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