quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Do lado de lá e do lado de cá

Do lado de lá é assim, tudo muito bonito. Um pedacinho de terra que entranha mansamente pelas águas, como quem não quer nada. Todo multi-verdes, adornado com pequenas casinhas construídas pela necessidade e depois pela vontade. Necessidade de ter um lugar seguro pra morar e se proteger, por aquela gente que veio ali em busca de um bom lugar ao sol do trabalho. Aquela gente, que constitui uma comunidade tão simples e brejeira, trabalha ao bel-prazer. E que prazer. E que trabalho! Pela vontade dessa gente que veio ali conhecer o pedacinho de terra e a comunidade brejeira e se encantou com a visita da vista. Se vê também ali uma quantidade de mar salgado que entranha com mansidão pela terra de areia branquinha. Diz a comunidade que quando se adentra nesse mar mansinho pro trabalho duro de prazer, pode haver uma inconstância das águas e o barco-forte, que carrega tantos peixes e pescadores, vira logo uma caixinha de fósforo, tão pequeno e frágil. É o mar que comanda o lugar. É a terra de lavrar. É onde se tem plantações e minas, de onde se tira a sobrevivência da comunidade. O mar, dia e noite, muda suas cores e enche os olhos, sendo de visita ou moradores. Esse jeito manso que ele tem de dar petelecos crispados na terra de areia convida a gente a entrar e pegar assento. É o mar que fala se hoje pode ou não pode e a comunidade acata. A gente também. É o mar que comanda os movimentos das ondas, das areias, das gentes. Os siris não ficam atrás. Sábia é essa gente que diz que é preciso respeitar o mar. Ele é o senhor da terra. É assim lá, todos se sentem bem com a água de muitos peixes.
Do lado de cá tudo é frio e escuro. A imensidão é lugar da imundice. Da terra só se vêem retalhos traçados no meio de asfaltos e cimentos. E quanta alvenaria! Há muito trabalho por aqui, não se pode negar, mas o prazer já ficou pra trás. Aqui não tem mina nem terra de lavrar, se faz trabalho a partir da imaginação, ilusão. Quase nada se pode pegar, mas quanto concreto! A comunidade já não existe faz tempo, o que se vê são gentes vagando, sombras nas penumbras. Olheiras, palidez e crenças traçam essa gente que só faz trabalhar em busca de um lugar ao sol e mais dureza. Aqui nada se vê, mas se sabe que o rei é um tal de mercado que a tudo comanda. É ele quem manda nas casinhas que caem e os casões que sobem. Os movimentos dos montes e das enchentes é pura desordem, mas é ele quem manda. As vozes submissas das sombras cavernosas ecoam que é preciso obedecer o mercado. Ele é o senhor das trevas.
Certa vez, disseram da construção de uma ponte que ligaria o lado de lá e o lado de cá. A façanha foi ordenada pelo senhor de cá. E a ponte era dura e escura, feia mesmo. O senhor de lá não gostou nada daquilo e tratou de movimentar ondas e siris para destruir a construção. O povo gostou e bateu palmas. As sombras choraram lancinantes. E assim, lá no alto surgiu brilhante um astro rei, sol forte, reinante de todos os céus.

2 comentários:

Ventos Internos disse...

Adorei, como sempre!! Rola Picim durante uma semana entre 8/3 e 24/03? Beijos

bruno simoes disse...

você esqueceu o suplicy