Metade escuridão - Vela acesa
Ele chegou segurando uma rosa pálida. Queria tingir o mundo todo de azul anil mas pareceu-se frágil. "Tenho forças", dizia ele, "tenho forças para acontecer!", mas ela já não o acreditava. Ela usava uma fita bem feita nos cabelos e isso contrastava com a simplicidade da cena. Sorriu levemente, segurou a rosa com mais firmeza. Sua voz, de tão doce, quase não se podia ouvir. São sempre as mesmas palavras. Ele sentia que sacrificava suas últimas gotas de sangue e estava disposto. Com seus chinelos descascados e calças mambembes, dobrou-se de joelhos, cobrindo o chão com um pesado pano vermelho. Retirou do peito nu um pequenino papel de seda e pôs-se a declamar:
"Vem, minha amada,
Cobrir-me com tu'alma,
que já não sou nada,
senão solidão!"
Ela, radiante, deixou a rosa despencar com toda sua tímida palidez. Cobriu o rosto perfeito com seu véu e de seus cabelos viam-se apenas raios de luar. Rodopiando confusamente, não sabia muito bem como soletrar todo o emaranhado de sentimentos que brotavam de seu olhar.
"Abra-te a boca
que eu quero despejar
todo o copo vazio...
Amo-te!"
Ele enfim compreendeu que a uma mulher não se deve entender e sim acarinhar. E ela deixou-se enlaçar pelos braços jamais completamente seus.
Vela apagada - Escuridão total
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