Com as mãos sujas de cinzas de cigarro, ela pegou uma folha de papel em branco, pra escrever qualquer coisa... uma história, um conto, uma poesia, ou até mesmo a lista do supermercado. Precisava escrever. Ver fora, pra crer. O que era dela ficaria na folha branca do papel. E a folha tinha manchas pretas de cinzas de cigarro. Já fumava há muitos anos, pra esquecer alguma coisa. Cigarro de manhã, pra esquecer o sonho. Cigarro depois do almoço, pra esquecer a comida. Antes de dormir, pra esquecer o dia. Durante o dia todo, pra esquecer a vida. E a cinza nos dedos marcaram o papel em branco pra lembrar, que ela não tinha nada pra escrever. Mais um dia passado em branco, mais que a folha, como a nuvem.
Sentia que a cabeça ficava muito mais acima do que o fim do pescoço. Com essa sensação, acendeu o próximo cigarro de esquecer qualquer coisa e pôs-se a pensar no dia de nuvem. A nebulosidade tomou conta da cabeça, do corpo, das mãos e dos pés. Nebulosidade das nuvens, da fumaça de cigarro, do carro. Dirigia em alta velocidade. Dirigia sabe-se lá pra onde. Mas ia com a certeza dos incertos, pra algum lugar-nenhum de sábado à noite. Parou em frente ao bar de sempre, aonde estavam as mesmas caras conhecidas, e não saltou. Mais fumaça em velocidade. À noite a cidade fica vazia de carros na avenida principal, a avenida que dá ou recebe o nome da cidade. Naquela velocidade não mataria nem o cachorro mais mambembe. Mas foi na esquina da avenida com a ruazela das crianças, que o velho bêbado surgiu trôpego e repentino. O carro deslizou, asfalto molhado, não parou. Avenida deserta, crianças dormindo. Ela estava sozinha com o carro enfumaçado e o cadáver no chão. Nem um uivo de cão, nem uma lua que alumiasse. Nem grito, nem choro. Ela colocou o corpo dentro do carro, no banco a seu lado, e acelerou. O carro não corria: voava. Cada vez mais alto, ela, o carro e o cadáver, não enxergavam as estrelas por causa da fumaça do carro, do cigarro, da rua. No ponto mais alto um grito! Começaram a cair desenfreadamente. Lá embaixo um poço. Na manhã seguinte, a manchete dos jornais anunciavam: “Carro cai em rio poluído e casal morre entoxicado”.
Sentia que a cabeça ficava muito mais acima do que o fim do pescoço. Com essa sensação, acendeu o próximo cigarro de esquecer qualquer coisa e pôs-se a pensar no dia de nuvem. A nebulosidade tomou conta da cabeça, do corpo, das mãos e dos pés. Nebulosidade das nuvens, da fumaça de cigarro, do carro. Dirigia em alta velocidade. Dirigia sabe-se lá pra onde. Mas ia com a certeza dos incertos, pra algum lugar-nenhum de sábado à noite. Parou em frente ao bar de sempre, aonde estavam as mesmas caras conhecidas, e não saltou. Mais fumaça em velocidade. À noite a cidade fica vazia de carros na avenida principal, a avenida que dá ou recebe o nome da cidade. Naquela velocidade não mataria nem o cachorro mais mambembe. Mas foi na esquina da avenida com a ruazela das crianças, que o velho bêbado surgiu trôpego e repentino. O carro deslizou, asfalto molhado, não parou. Avenida deserta, crianças dormindo. Ela estava sozinha com o carro enfumaçado e o cadáver no chão. Nem um uivo de cão, nem uma lua que alumiasse. Nem grito, nem choro. Ela colocou o corpo dentro do carro, no banco a seu lado, e acelerou. O carro não corria: voava. Cada vez mais alto, ela, o carro e o cadáver, não enxergavam as estrelas por causa da fumaça do carro, do cigarro, da rua. No ponto mais alto um grito! Começaram a cair desenfreadamente. Lá embaixo um poço. Na manhã seguinte, a manchete dos jornais anunciavam: “Carro cai em rio poluído e casal morre entoxicado”.
Um comentário:
nossa essa doeu.
seus textos são bastante inteligentes, as últimas partes estão diretamente ligadas ao vazio do começo.ADOROOOO!!!
Engraçado porque realmente fumamos para esquecer as coisas e quando estamos felizes fumamos para continuar feliz.
Fantástico.
Ps: nesse instante vc se despediu no msn falando que ia comprar cigarro!!! porque estava um bom dia para cigarro!!! hahaha
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