quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Dia de Nuvem

Com as mãos sujas de cinzas de cigarro, ela pegou uma folha de papel em branco, pra escrever qualquer coisa... uma história, um conto, uma poesia, ou até mesmo a lista do supermercado. Precisava escrever. Ver fora, pra crer. O que era dela ficaria na folha branca do papel. E a folha tinha manchas pretas de cinzas de cigarro. Já fumava há muitos anos, pra esquecer alguma coisa. Cigarro de manhã, pra esquecer o sonho. Cigarro depois do almoço, pra esquecer a comida. Antes de dormir, pra esquecer o dia. Durante o dia todo, pra esquecer a vida. E a cinza nos dedos marcaram o papel em branco pra lembrar, que ela não tinha nada pra escrever. Mais um dia passado em branco, mais que a folha, como a nuvem. 
Sentia que a cabeça ficava muito mais acima do que o fim do pescoço. Com essa sensação, acendeu o próximo cigarro de esquecer qualquer coisa e pôs-se a pensar no dia de nuvem. A nebulosidade tomou conta da cabeça, do corpo, das mãos e dos pés. Nebulosidade das nuvens, da fumaça de cigarro, do carro. Dirigia em alta velocidade. Dirigia sabe-se lá pra onde. Mas ia com a certeza dos incertos, pra algum lugar-nenhum de sábado à noite. Parou em frente ao bar de sempre, aonde estavam as mesmas caras conhecidas, e não saltou. Mais fumaça em velocidade. À noite a cidade fica vazia de carros na avenida principal, a avenida que dá ou recebe o nome da cidade. Naquela velocidade não mataria nem o cachorro mais mambembe. Mas foi na esquina da avenida com a ruazela das crianças, que o velho bêbado surgiu trôpego e repentino. O carro deslizou, asfalto molhado, não parou. Avenida deserta, crianças dormindo. Ela estava sozinha com o carro enfumaçado e o cadáver no chão. Nem um uivo de cão, nem uma lua que alumiasse. Nem grito, nem choro. Ela colocou o corpo dentro do carro, no banco a seu lado, e acelerou. O carro não corria: voava. Cada vez mais alto, ela, o carro e o cadáver, não enxergavam as estrelas por causa da fumaça do carro, do cigarro, da rua. No ponto mais alto um grito! Começaram a cair desenfreadamente. Lá embaixo  um poço. Na manhã seguinte, a manchete dos jornais anunciavam: “Carro cai em rio poluído e casal morre entoxicado”.

Um comentário:

O. Paulo Souza Jr. disse...

nossa essa doeu.

seus textos são bastante inteligentes, as últimas partes estão diretamente ligadas ao vazio do começo.ADOROOOO!!!

Engraçado porque realmente fumamos para esquecer as coisas e quando estamos felizes fumamos para continuar feliz.

Fantástico.

Ps: nesse instante vc se despediu no msn falando que ia comprar cigarro!!! porque estava um bom dia para cigarro!!! hahaha