Lavava a louça ensebada do jantar. Pratos, copos, panelas, tigelas de sobremesa. Pensava no dia repleto de atividades no trabalho. As pessoas que falavam o que sentem, as pessoas que pensam que falam o que sentem, as que pensam que entendem o que sentem. Como tudo ali é vazio! Nada é criativo ou novo! Pensou em propor alguma atividade que pudesse mudar a dinâmica daquelas pessoas, daquele lugar. Mas o que? Teatro seria bom, eles poderiam encenar diferentes papéis, montar textos. Mas para isso precisaria saber como dirigir uma peça, e na vida, não passava de mera espectadora. Dança era outra opção, eles se moveriam, experimentando novas formas de colocar o corpo, até poderiam experimentar outro corpo, que não aquele endurecido pelos remédios, pela vida. Mas não sabia dançar. Poesia, poderiam colocar em palavras seus sentimentos, idéias. Mas ali nem todos são alfabetizados, ou não têm o ímpeto da escrita poética. Foi daí, dessa busca, que uma idéia saltou pipocando: jornal. Já experimentara trabalhar num jornal. As pessoas poderiam escrever suas experiências dali ou de fora dali, em textos poéticos ou em prosa, poderiam tirar fotos, desenhar, tudo ficaria impresso nas folhas do jornal. Quem não se animasse com essa parte da produção, poderia participar da montagem do jornal e vê-lo rodar, ser impresso. Os jornais cairiam nas mãos de todas as pessoas ali dentro e até ali fora. Alguns textos (que denunciassem maus tratos, por exemplo) poderiam ser vendidos para a grande mídia. Eles poderiam vender os jornais e os jornais seriam reconhecidos pela sociedade toda. E com tantas denúncias, os donos de hospitais ou os políticos corruptos iriam querer saber de quem foi a idéia de fazer “esses jornaizinhos” e iriam querer matá-la, como aconteceu com o grande... Guatarri... não, não, Guatarri viveu muitos anos, aconteceu com o grande... Se deu conta de que a água suja da pia descia ralo abaixo, como num redemoinho. (25/05/2005)
Um comentário:
ouch...
adorei a profundidade do seu texto.
Incrível que normalmente quando pensamos em tomar uma atitude diferenciada o MÍNIMO nos barra?
Como o medo...
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